sábado, 28 de outubro de 2017

VIDAS DE GRANDES MULHERES - 3

Continuando a divulgação do livro VIDAS DE GRANDES MULHERES (Henry Thomas e Dana Lee Thomas - Livros do Brasil, Lisboa), iniciada por Teresa Martins Marques:


GEORGE ELIOT (1819-1880) (pp. 108-109) - 2

Surgiu em Londres e foi nomeada subdirectora da Westminster Review. Confundiu os sabidos com a sua sapiência. Interessou-se pela nova ciência da frenologia – o estudo do carácter de uma pessoa pela conformação do crânio – e ela mesma rapou o couro cabeludo, a fim de que a Sociedade de Frenologia pudesse fazer uma experiência com um modelo de gesso da sua própria cabeça. Durante semanas, usou um chapéu nos salões de baile e nos teatros, até que o cabelo tornasse a crescer, e distraiu-se nos seus momentos de solidão a traduzir a Vida de Jesus do pesado alemão de David Strauss. Terminado esse trabalho, aproveitou as noites a traduzir a Ética de Spinoza do latim, depois das suas quinze horas de actividade por dia, como redactora da Westminster Review. Não havia entre os críticos literários um tubarão mais devorador e tremendo do que aquela mulher. Os seus comentários sobre as novelas modernas eram sem rodeios e aterradores. Mantinha polémicas com Carlyle, Huxley, Mill, Tyndall e outros principais mercadores de pensamento. Sentava-se nos restaurantes com ilustres emigrados, refugiados políticos do continente, aspirantes a escritores. Discutia a doutrina do socialismo com Louis Blanc, e a arte da insurreição com Mazzini.
A essa altura da sua vida, conheceu o arcanjo da arte de teorizar, Herbert Spencer, então conhecido como autor de Social Statics. Com ele foi aos teatros e deu passeios pelo Tamisa. Os amigos começaram a murmurar ansiosamente que os dois navegantes mentais tinham descoberto entre o seu equipamento espiritual uma emoção clandestina que podia tomar conta do barco e dirigir-lhe a rota. Depois de fazer a Mary Anne uma corte honrosa e analítica, Herbert Spencer esperava declarar-se. Admitiu publicamente, e também no seu íntimo, que nunca encontrara até então uma mulher cujas forças e fraquezas fossem em todos os pontos tão semelhantes às suas próprias. E Mary Anne encontrou no ousado arquitecto de teorias a personificação do marido ideal. Spencer considerara a evolução das coisas e julgara que o seu estado final devia ser... o de solteiro.
Não tardou que os dois não mais fossem vistos juntos. Mary Anne retirou-se discretamente para o seu gabinete e deixou que os seus amargos ressaibos sentimentais desaparecessem no trabalho. A vida apanhara-a afinal e desprendera-a da sua atitude de superioridade em frente da existência; e fizera-a lembrar-se de que era uma mulher e que podia ser ferida. Aos trinta, julgara-se velha, velha demais para ser atingida pelo tempo; agora, tinha bem mais do que trinta. Entretanto, na sua súbita velhice sentiu-se novamente jovem, jovem bastante para ser corrigida pelo tempo. Certa vez, essa Minerva da sabedoria – isso aconteceu antes que ela descobrisse ter um calcanhar de Aquiles – dissera com verdade e beleza:
- Para os velhos, sofrimento é sofrimento, para os novos, é desespero.
Havia tempos que ela dissera isso; agora 'sabia' isso, conhecia toda a profundidade da agoniante gradação que vai do sofrimento ao desespero.
Já não falava de si em termos intelectuais. «Nos meus momentos de tristeza, sinto uma impressão assim como de uma procissão que desfilou a cantar e cujos sons musicais se perderam ao longe, deixando-me só, em companhia dos campos e dos céus.»
Passado algum tempo, porém, observou com sarcástica dignidade: «A atmosfera e eu estamos melhor; lamentamos as nossas nuvens e sumimo-las todas, e contemplei mais seis meses de vida.»
(Continua)


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