Na sequência da série de posts iniciada por Teresa Martins Marques acerca do livro VIDAS DE GRANDES MULHERES (Henry Thomas e Dana Lee Thomas - Livros do Brasil, Lisboa), transcrevi e aqui vos deixo um excerto do 1º capítulo (pp. 105-107) da vida da grande escritora GEORGE ELIOT (1819-1880)
[...] Mary Anne Evans nasce[u] no dia de Santa Cecília, à beira da Floresta de Arden. Seu pai era um agricultor do interior do país, um «velho Tory honesto» que pronunciava a palavra «governo» de uma maneira que infundia a seus filhos pavor religioso. [...] Era firme como uma arca, e tão cheio de fé como a Sagrada Escritura. Nada havia a respeito da sua vida e da de sua mulher que fizesse pensar numa irregularidade. Ali estava, porém, sua filha Mary Anne, que navegava contra o vento. Tinha têmpera decidida e imaginação, e um código de justiça particular. Para ela, uma vaca não era uma vaca. Nem uma boneca uma boneca. Quando se zangava com a Humanidade – por causa de alguma coisa que o pai fazia – cravava as unhas na cabeça da boneca. Depois, como uma verdadeira deusa, arrependia-se e aplicava emplastros. Aos cinco anos, era «uma curiosa menina com feições fortemente caracterizadas e grande seriedade de expressão, a quem as companheiras mais velhas mimavam chamando-lhe mãezinha». Aos oito anos, viu na religião uma força activa. Antes dos doze, ensinou numa aula de catecismo dominical para filhos e filhas dos agricultores de Nuneaton. Aos treze, resolveu que a ortodoxia em religião não era necessária para a nobreza do carácter. Leu Wordsworth. As pessoas mais velhas ficavam espantadas ao ver, no meio da placidez normal da quinta Evans, dois olhos cintilantes que sobressaíam como estrelas num inexpressivo ambiente de noite. Chamavam-lhe Clematide, que, na linguagem das flores, significa beleza moral.
Entretanto, a nobre amiguinha do estudo sentia uma selvagem dentro dela. Vagueava pelos campos e pouco se importava se os espinhos lhe faziam sangue nos pés. Lutava com seu irmão até ficar com os cabelos empastados de barro. Gostava de se atirar e descansar em lugares mal cuidados, e de espremer uma amora como se fosse uma coisa viva. E quando ia à igreja, toda endomingada, sentia-se deslocada como um selvagem num palácio.
Afinal, porém, o inevitável correr dos anos tirou-lhe a rudeza. Tornou-se alta, elegante mesmo, e senhora de si. Renegou quase todos os seus «brinquedos» infantis. Ficou com os livros de Goldsmith e Scott, os ensaios de Lamb, as fábulas de Bunyan. O que lhe interessava era agora deliberadamente cultivado, e não simplesmente recebido de presente da Natureza. Leu os Pensamentos de Pascal, e ouviu as missas de Bach e as oratórias de Haendel. Deixou por algum tempo de ir à igreja. Aprendeu muitas línguas e desprezou muitas convenções. Enquanto as outras mulheres punham cosméticos e se tornavam garridas para atrair um homem, ela punha óculos para atrair a musa do saber; e ostentava ares professorais para manter a distância todos os homens, afastando-os de um procedimento romântico. Ainda era uma cigana; não já como criança, está visto, mas como filósofo. Nunca «se fixaria» e estabeleceria para se aquecer junto à moralidade-lareira da sua geração. Percorreria um itinerário de princípios morais e desventuras e revelações todo seu. Escandalizaria os pais e maridos ingleses. Quem é que ouvia falar de uma mulher respeitável na Inglaterra vitoriana que aprendesse a vida por experiência própria, sujeita à provação e ao erro? Uma esposa e uma mãe tinham de passar por muitas experiências e provações, sem dúvida, diziam os homens. Mas não deviam estar sujeitas a erros, e certamente que não deviam 'aprender'.
Mary Anne Evans, porém, era, aos vinte e um anos, mais do que um inglês. (Continua)
Afinal, porém, o inevitável correr dos anos tirou-lhe a rudeza. Tornou-se alta, elegante mesmo, e senhora de si. Renegou quase todos os seus «brinquedos» infantis. Ficou com os livros de Goldsmith e Scott, os ensaios de Lamb, as fábulas de Bunyan. O que lhe interessava era agora deliberadamente cultivado, e não simplesmente recebido de presente da Natureza. Leu os Pensamentos de Pascal, e ouviu as missas de Bach e as oratórias de Haendel. Deixou por algum tempo de ir à igreja. Aprendeu muitas línguas e desprezou muitas convenções. Enquanto as outras mulheres punham cosméticos e se tornavam garridas para atrair um homem, ela punha óculos para atrair a musa do saber; e ostentava ares professorais para manter a distância todos os homens, afastando-os de um procedimento romântico. Ainda era uma cigana; não já como criança, está visto, mas como filósofo. Nunca «se fixaria» e estabeleceria para se aquecer junto à moralidade-lareira da sua geração. Percorreria um itinerário de princípios morais e desventuras e revelações todo seu. Escandalizaria os pais e maridos ingleses. Quem é que ouvia falar de uma mulher respeitável na Inglaterra vitoriana que aprendesse a vida por experiência própria, sujeita à provação e ao erro? Uma esposa e uma mãe tinham de passar por muitas experiências e provações, sem dúvida, diziam os homens. Mas não deviam estar sujeitas a erros, e certamente que não deviam 'aprender'.
Mary Anne Evans, porém, era, aos vinte e um anos, mais do que um inglês. (Continua)

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